quarta-feira, 20 de abril de 2016

Para as mulheres brasileiras e sem recato

Tenho muito orgulho da minha família! Meus pais educaram a mim e aos meus irmãos para sermos éticos, honestos, trabalhadores, independente do sexo. Minha irmã e eu não fomos ensinadas ou treinadas (ou seria melhor adestradas?) para nos tornarmos mulheres belas, recatadas e do lar. Funcionou muito bem, somos mulheres independentes e batalhadoras.
A matéria sobre a esposa do Temer na revista Veja, por sorte, não me representa, nem me causa nenhuma mísera gota de inveja ou admiração, tampouco a maioria das mulheres com as quais convivo, todas buscam seu espaço na sociedade, defendem seus pensamentos, lutam por um país melhor, exercendo suas profissões.
Houve muito investimento na minha família em educação e muita conversa para a formação de valores humanos. Nunca fomos incentivadas a seguir padrão de beleza algum. Lembro a admiração dos meus pais, quando eu quis, aos dez anos, cortar o cabelo bem curtinho, era um desejo meu e foi atendido sem problemas. Não sei se houve boato, se eu tinha piolho ou se eu era homossexual, para esclarecer: eu não tinha piolho (tive, mas não nesta ocasião) não sou homossexual e se fosse tenho certeza que minha família aceitaria, porque a preocupação sempre foi com estudo, ética e dignidade, livre de preconceitos. Assim penso e me encho de orgulho.
O Deus que respeito e venero, não é o citado no domingo fatídico da votação do impeachment, meu superior é outro! O meu prega a liberdade, admira a Maria Madalena e desconsidera o modelo de mulher bela, recatada e do lar. Não quer violência, deseja propagar a paz e jamais prestaria homenagem ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Deus é, sim, tolerante e misericordioso, não obstante jamais aplaudiria a crueldade!
Assusta-me o pronunciamento do nome de Deus em vão, me assusta o modelo de mulher que desejam impor, me assusta o futuro do país! Não quero, nem nunca serei recatada! A propósito, me parece tudo tão antigo nos últimos dias, a sensação de que o Brasil caminha de ré. Preparem-se o retrocesso aproxima-se... As mulheres recatadas já existiram, em sua maioria, em séculos passados. Época em que mulheres deveriam aceitar caladas a traição de seus maridos e acreditar na fala comum, repetida de que a natureza masculina era outra, diferente da mulher. Fidelidade era algo atribuído apenas ao gênero feminino. Que triste, mal sabiam elas: era tudo culpa do maldito recato, que lhes fora imposto e não fora questionado! Nem todas aceitavam, mas a maioria feminina calada e infeliz mantinha-se casada por depender financeiramente dos maridos. Sem falar na violência doméstica que, infelizmente, sempre existiu, houve tempos ainda mais difíceis, os anteriores a lei Maria da Penha. Bom ter nascido em outro período, porém me aflige pensar o quanto ainda precisaremos lutar, porque a violência contra a mulher segue. Basta pensar na agressividade sofrida pela presidenta nos últimos meses e nas mulheres contrárias ao impeachment no momento da votação no domingo, as vaias e as ofensas recebidas.

Bem, continuemos unidas, mulherada sem recato e batalhadora, afinal a luta por uma sociedade igualitária e justa continua e o Brasil precisa de gente forte e guerreira. As recatadas que fiquem em casa tomando chá, enquanto nós nos ocuparemos da reconstrução de um Brasil melhor. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

OS FILHOS DA BABÁ

     Li com tristeza a matéria Cuidado terceirizado na Zero Hora, quinta-feira, 7/1, p. 24-25. Tristeza esta que move este texto.
     Pertenço a uma geração de mulheres trabalhadoras e bem-sucedidas, do que muito me orgulho! O que não entendo e me entristece é o sentir-se obrigada a ser mãe. Admiro minhas amigas que decidiram pelo ser mãe de forma consciente e responsável e também admiro aquelas que optaram por não serem mães, por não sentirem este desejo. Nas redes sociais tenho lido muito a respeito do não sou obrigada. Acho perfeito: ninguém é obrigada! Mas por que as mulheres sentem-se obrigadas a serem mães? Não vejo outra justificativa para a terceirização dos filhos! Pressão social, familiar, status? Querem enfiar lacinhos nas meninas e shortinhos coloridos nos meninos e levá-los para passear nos parques ensolarados para postar foto no facebook como família feliz? Que palhaçada, mulherada! No entanto, não querem a cólica, a dor de dente, o dia a dia do educar? Filho é uma escolha e no momento que optarem pela maternidade, o façam com a mesma competência que buscam como profissionais em seus ambientes de trabalho. De que serve ter uma mãe mega-empresária, podre de rica que nem sabe qual o brinquedo favorito do filho? Mãe tem que ser presente! E não me venha com esta de qualidade! É impossível ter qualidade se não são capazes de levarem o filho ao pediatra! Mães de fachada, mães de mentirinha! Que vergonha dessas mulheres! Querem encher os filhos de grana, querem que estudem nas melhores escolas, mas cadê o afeto? Me assusta pensar que teremos um futuro de adultos mal amados, cheios de dinheiro e vazios de afeto, ocos de amor de mãe! Pobre gente!
     Não vejo mal algum em contar com a ajuda de avós e de babás, é importante e necessário. O que não pode haver é a substituição da mãe, como bem disse o pediatra José Martins Filho em entrevista a Zero Hora. As babás ganharam o espaço de mãe, conhecem mais as crianças que os próprios pais, assumiram a educação total! Da baixa frequência de pais em reuniões escolares eu já sabia, já presenciei como professora e como mãe, no entanto a do consultório médico para mim foi uma revelação assustadora.
     Mulheres, se o desejo de ser mãe não as atingir, façam um bem a humanidade e não tenham filhos, não engravidem para agradar familiares e amigos e fazer lindos books de barrigão, pensem em vocês mesmas! Sejam conscientes e responsáveis, maduras o suficiente para refletir se querem doar um tempo precioso de suas vidas ao seu filho. Não se iludam: filhos dão trabalho e em qualquer idade! Se não estão dispostas à renúncia alguma não se tornem mães fajutas, sejam verdadeiras e leais consigo mesmas. Mãe é vocação, não obrigação! 

Publicado no jornal Zero Hora, 9 de janeiro de 2016.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

SAÚDE

     
   
     

     Nada como alguns dias entre idas e vindas no hospital para enxergar a vida de outro jeito. Frase lugar-comum, mas tão verdadeira! Eu não estava na condição de paciente, mas de familiar! Meu pai agora já está em casa, após um período de internação. Fico imaginando como é bom voltar para casa! Que bom pai, o senhor poder dormir na sua cama, esticar-se no seu sofá, diante de sua tela de tevê gigante e com inúmeros canais de esporte... Obrigada, Papai do Ceú!
     Mas tô com o hospital entalado na garganta e preciso escrever para lembrar ou para esquecer, sei lá! No espaço hospitalar as pessoas não tem nomes, só os pacientes são nomeados! Conversei com um bocado de gente, de poucas soube o nome, porém ouvi histórias, contei outras, distribui sorriso e esperança, tentei ser boa. Na UTI são sempre os mesmos visitantes e a gente vibra ao saber que algum familiar vai para o quarto e sofre junto com aqueles que permanecem ali. Na UTI conheci o velho carrancudo, que deve culpar Deus e o mundo pela enfermidade da mulher, ele nem sequer cumprimenta no corredor, olha pra dentro preocupado em engolir sua dor. Deve sofrer tanto que nem se dá o trabalho de perceber a dor dos outros. Pobre homem! Conheci também a família do Bruno de 19 anos e que seguia na UTI. Espero que logo o Bruno vá para o quarto, melhore, volte pra casa e ganhe o mundo! A família do Bruno é de pessoas humildes, do interior, se não estou enganada, de Bagé. Todos os dias lá estavam: avós, mãe e pai. As avós do Bruno sempre sorrindo, sentadas no sofá da recepção do Hospital Santa Rita, sempre respondem no mesmo tom sobre a saúde do neto: tá melhorando, vai ficar bem! Uma esperança no olhar capaz de comover ao mais duro dos viventes. Pena o velho carrancudo nunca ter visto, apesar de muitas vezes ter ficado ao lado delas na porta de entrada da UTI. Que sorte a minha ter visto e ter conversado com as avós. Porque avós sempre me emocionam, tem uma energia diferente, um amor que transborda, avó é obra de Deus!
     Desbravei o hospital labiríntico com a minha mãe, nunca tinha percebido o quanto é grande a Santa Casa: tem centro cultural, bistrô, capelas, restaurantes, lancherias, banca de livros e revistas, bancos! E tem Banco de sangue, é claro! Ao postar no face pedido de doação de sangue pro meu pai, veio ajuda de quem sempre se espera e de quem nunca esperei. Gente que poderia e nada fez. De surpresas e de decepções é feita a vida também! Prefiro guardar as surpresas e tentar esquecer decepções...
     Corri muito atrás de enfermeiro no quarto andar, poucos funcionários para um corredor gigante. Os enfermeiros passam se desculpando, por uma culpa que não lhes deveria pertencer. Enfrentei médicos que falam medicianês, nunca pesquisei tanto no google e descobri que falam assim para que ninguém entenda mesmo! Médicos experientes, às vezes, sabem ser grosseiros e confesso: não meti um tapa na cara de um, porque ainda tenho um certo controle emocional. Por sorte ainda tem médico alto astral e querido, até mesmo entre os experientes, são mais escassos, é verdade... Os residentes, assim como as avós, também são obra divina, espero que não mudem com a experiência, tomara que os anos não tirem o afeto da voz dos doutores em formação!
     E no início de 2016 o que posso desejar a todos e, principalmente, ao meu pai é saúde, esperança e fé! 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O talismã dentro de nós


     Cresci ouvindo minha mãe cantar e acreditar no que diz a canção: sorte tem, quem acredita nela. Não sei se foi uma lavagem cerebral, mas passei a crer nestas palavras.
Importunam-me pessoas queixosas da vida e da falta de sorte. Quem pensa positivo, enxerga a vida sob outro prisma, tem um olhar mais leve, adquire menos ruga, não tem aqueles feios vincos na testa. Afinal somente são permitidas as linhas de expressão formadas ao lado dos lábios que marcam o excesso de sorrisos e de gargalhadas.
     Tudo bem, não precisa carregar amuleto, ficar desesperado para encontrar um trevo de quatro folhas, mas confiar em dias melhores ajuda bastante a caminhar pela vida, assim penso e assim faço.
     Sortudo é quem se vê desta forma. Afinal de momentos bons e nem tanto todos vivem. Ninguém é perfeito, ninguém tem vida perfeita. O comercial de margarina só existe na tela da televisão! E aquela história da grama do vizinho é mais verde do que a minha, não faz sentido. A maldita síndrome de pensar que os outros vivem melhor, são mais felizes ou tem mais sorte que a gente, acompanha muitas pessoas. Nada disto, se espiarem um pouquinho mais a vida do outro, poderão certificar-se de que não é bem assim. Pura ilusão!
Se a vida não vai bem, tenta outro caminho, refaz a trajetória e segue em frente, reclamar de falta de sorte é atitude comodista.

     Desejo que todos saibam carregar um talismã dentro de si e, assim, a sorte nos acompanhará sempre!

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

SOBRE O MAR

     
     Uma das minhas maiores motivações para escolher Rio Grande como morada foi a existência do mar. Esqueci do frio do nosso estado, desconhecia tanta umidade, tanto mofo, tanto vento quando vim parar por aqui. Mas, apesar de todos os pesares, dos tantos desagradáveis (umidade, mofo e vento) e do cinza característico rio-grandino, há o mar!       Sim, Rio Grande tem mar, tem a maior praia do mundo.
      Estive em Rio Grande na infância, na companhia de meus pais e irmãos. Fazia muito tempo, quando retornei, nem me lembrava mais... Voltei à cidade para prestar concurso para a FURG e confesso não ter gostado do lugar. Fiquei hospedada no centro, onde tudo me pareceu triste, antigo e sujo. Questionei se queria mesmo viver aqui, até conhecer o Cassino, no último dia do concurso. Foi quando decidi: quero morar neste lugar! As árvores da Avenida Rio Grande e o mar me encantaram.
     No primeiro ano de vida no Cassino (agora já são cinco), caminhava todos os dias para saudar o mar. Depois fui me acostumando à presença da imensidão azul e agora não a contemplo todos os dias, mas a certeza de sua proximidade me faz bem, me consola. E sei: posso olhar o mar, ele está logo ali. E sei também o quanto olhar o mar me tranquiliza, me faz sentir em paz. As ondas carregam lamentos, angústias. Parece que aquele movimento das ondas pode curar qualquer dor. Diante do mar, grandioso e onipotente, sinto minha pequenez, me energizo, me fortaleço. Com o tempo descobri: contemplar o mar é minha forma de oração.
     O Cassino é um lugar de encanto, de magia: da calmaria do inverno à agitação do verão, tudo me agrada, tudo tem sua beleza. Claro, continuo a reclamar da umidade, do mofo, do vento, no entanto tudo é pequeno, diante da beleza grandiosa do mar e das árvores da avenida Rio Grande. Os cassineiros, de modo geral, gostam mesmo é do final do verão, quando os turistas invasores do espaço, egoisticamente considerado como todo nosso, voltam para as suas cidades de origem. E os moradores do Cassino respiram aliviados. E eu, faço parte do grupo de exceção, que aprecia tanto a presença dos turistas, como também a sua partida.
     Postei no facebook uma foto do mar acompanhada da frase: “O que acalma não é água com açúcar, é água salgada”, e uma amiga sugeriu a escrita deste texto: espero que os rio-grandinos, leitores deste espaço e os que, como eu, adotaram esta cidade, se identifiquem com esta declaração de amor ao mar e ao Cassino.


sábado, 2 de maio de 2015

Professores apanham na pátria educadora!

     
     Sou professora e me dói a forma como o governador do Paraná e a polícia, sob o seu comando, têm tratado os meus colegas, me doeria também se fosse com qualquer outro brasileiro que trabalha de forma digna e honesta. O que está ocorrendo no Paraná é uma enorme falta de respeito, uma afronta ao cidadão de bem, ao povo trabalhador que reivindica, de modo civilizado e justo, por melhoria salarial, por melhores condições de trabalho e de vida. Reitero não me comove somente por ser professora, com outra categoria sofreria também, no entanto não nego que a representação torna minha indignação ainda maior e provoca a escrita deste texto que redigo como porta-voz de uma categoria cada vez mais maltratada, mais desacreditada, mais desvalorizada no país que se diz pátria educadora.
   Atuo na formação docente há quase vinte anos e cada vez se torna mais difícil sensibilizar o futuro professor de que a situação profissional vai melhorar, tenho dito e repetido isto e devo admitir que minha utopia, meu otimismo tomaram conta de mim, percebo minha ingenuidade e perco as forças. Devo considerar que iludi, meus estimados aprendizes de professores, peço-lhes desculpas. Sempre disse que vale a pena ser professor, que a realidade iria mudar, em salas de aula, em mesas redondas, em palestras. Sim, sempre acreditei, não estava falseando, enganando, ludibriando ninguém, talvez a mim mesma.
     Os anos têm se passado e nada muda, a realidade do professor só tem piorado em nosso país, os problemas se agravam, o salário permanece baixo, aliás está quase vez mais defasado... A presidente anuncia que em seu novo mandato a educação será a prioridade, a partir de então viveremos na pátria educadora. Eu, novamente iludida e ingênua, acredito! Como pode em uma pátria educadora o professor ser tratado de forma tão violenta?
     Escrevo este texto, com uma enorme tristeza e um pedido de desculpas pela ilusão transmitida a tantos futuros docentes neste meu tempo de professora em curso de licenciatura. O pior é que finalizo ainda otimista, ainda ingênua, ainda iludida, deve ser este sangue brasileiro que me corre nas veias e não me deixa desistir. Sim, reconheço: sou Maria, aquela mesma descrita na canção do Milton Nascimento.


sábado, 21 de fevereiro de 2015

Por um mundo feminino colorido e nada de tons de cinza

      Com tanto livro erótico bom no mercado, não entendo a fissura feminina pelo Cinquenta tons de cinza. Preocupa-me não só a qualidade estética, mas, principalmente, o modelo de mulher presente na obra.
   Lamentável que Anastácia, submissa, insegura, com a autoestima baixíssima seja modelo para mulheres do século XXI. Beira a infantilidade, a inocência, a ingenuidade comover-se com algo tão inverossímil quanto à história de uma virgem com mais de vinte anos, que aceita, após ver um quarto repleto de objetos de sadomasoquismo, encarar o sexo com o homem dominador. Qualquer mulher virgem em sã consciência, ao ver o quarto descrito na obra, sairia correndo no mundo real! A ficção não pode ser assim inverossímil. E mais a virgem tem orgasmo na primeira relação. Orgasmo feminino em uma primeira transa é muito irreal!
     A personagem aceita assinar contrato para transar e para assumir o papel de submissa. Que tipo de relação é esta? Uma relação centrada no masculino, ignorando o feminino. Trata-se de uma obra machista. Assusta-me o fato de que tenha sido escrita por uma mulher e ter despertado o gosto feminino e é esta indignação que estimula a escritura deste texto.
     Aprecio ficção de qualidade, inclusive erótica. Se as mulheres querem ler algo excitante, registro nome de algumas autoras: Anais Nin, Almudena Grandes, Marguerite Duras, Hilda Hist, Tatiana Levy. Recomendo alguns filmes eróticos também, já que agora os Tons estão nas telas de cinema, meninas se excitem de verdade com: Último tango em Paris, O amante, Intimidade, As idades de Lulu.
   Modelo de mulher podem ser Simone de Beauvoir ou Dercy Gonçalves, para dar exemplos bastante diferentes em tempo e espaço. Mulheres que lutaram por seu lugar no mundo, não se deixaram dominar, sujeitos de sua história, não objetos.

     Desejo que o mundo feminino seja muito colorido, com sexo de verdade e sem papéis definidos. Deixem os tons de cinza para a obra com a mulher escondida atrás do belo vulto masculino. Nós não precisamos nos esconder, somos capazes de caminhar, não precisamos de amparo, precisamos de espaço, de sexo igualitário e nada de submissão!